Mostrar mensagens com a etiqueta histórias sem estória. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta histórias sem estória. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 16 de julho de 2009

História inacabada



Olhou as luzes que ofuscavam as dores escondidas nas esquinas da cidade, percorreu os destinos magoados de quem se esqueceu dos dias, relembrou promessas adiadas para um depois que nunca chegou...
...e as lembranças teimavam em dizer que era só um dia engalanado de luzes, doces recordações envoltas no papel celofane da tentação!
Um dia...nada mais do que um dia!
Uma soma de horas, horas que se abraçam como corpos em ondas de paixão!
Uma soma de minutos, minutos que sussurram ecos de sentires distantes!
Uma soma de segundos, segundos de palavras ausentes nas linhas marcadas da tua mão!

Olhou-se ao espelho e gostou do que viu, feliz por não ter hesitado mais do que meia dúzia de minutos antes de entrar na loja.
O vermelho sempre tinha sido a sua cor favorita… Calor, paixão e alegria tudo se misturava nesse tom aquecido pelo raiar solar dos trópicos e ela sabia que a sua vida podia ser apenas uma soma de dias, se não os polvilhasse com a canela aromática da emoção!

Aquele vestido de um vermelho envergonhado, prometia-lhe um dia, o seu dia...um dia escrito num sentir conjugado na primeira pessoa do plural e, por isso, ela contava os segundos para que se tornassem longos minutos de prazer!
Afinal um dia podem ser 24 horas de tentações, escritas de forma indelével nas páginas entreabertas da nossa história…sempre inacabada!

terça-feira, 12 de maio de 2009

contradições



Contra-adições, ou quero que sejam apenas subtrações de um desejo expresso num café fumegante nos teus dedos espartilhados de temor.
Contra apenas por ser ausência de adições de um qualquer grão de ti que espartilha os sentimentos neste corpo que perde consciência de si e se lava na água benta da purificação. Estremece em arrepios que convidam o frio para uma chávena de chá de menta adoçada com o mel que de ti nasce.
As memórias varrem o chão do pensamento e adormecem esquecidas na esquina do quarto. Toco-lhes no ombro e pergunto o que fazem ali...a tão longa distância de casa. Não sabem responder…fugiram num momento de amnésia e esqueceram o caminho de volta. Estavam perdidas naquele espaço desconhecido e recusavam-se a despertar. Sabiam-se memórias, mas não sabiam de quem...sabiam-se pensamentos mas esqueceram a forma!
Escorria nos dedos um passado tão longínquo que já tinha perdido a vida. Porque o passado adormece para sempre na sepultura do esquecimento.
No chão estendidas bocejavam indiscrições e procuravam no aconchego do vazio a sua estrutura para poderem tornar-se ocas de uma realidade sem corpo.
Contradições...
...sem adições de açucar ou qualquer conservante, a vida pode tornar-se uma toranja amarga!

terça-feira, 21 de abril de 2009

Sol de Abril


Não posso esperar que Abril passe, sentada na soleira da porta deste estranho sentir. Correm as águas mil dentro destas partículas que se fazem corpo, piam as aves num agoiro que não tem de ser obrigatoriamente mau, talvez apenas…nada!
E corre Abril, como as águas tumultuosas deste rio em que me abro, soltam-se as vozes em gritos que ecoam, dizem da solidão onde se perdem nos meandros dos dias despojados de tudo.

…e volta Abril com aromas de Primavera num ranger de dentes, onde o Inverno ainda permanece.
Amadurece a fruta no desmaiado sol, insuficiente para abafar essa sucessão de arrepios. Fecham-se os olhos na espera de um vazio que tarda em chegar!
Abracei-me ao sol que se soltou das tuas palavras e com elas Abril voltou a florir!

terça-feira, 10 de março de 2009

Suave amanhacer



Sentei-me na erva molhada...com pérolas de mar nos meus olhos.
Deitei-me na terra fecunda...com desejos abertos no meu ventre.
Esperei-te nos segundos vadios...com beijos tardios na minha boca.
Desenhei-te no céu do meu pensamento...com as cores suaves do amanhecer.

Agarrei a mão que me estendeste...com o desespero da noite que chega.
Afastei da penumbra do ser...os fantasmas do vazio e da solidão!

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O mar é fêmea



Sabe-se que o mar é fêmea!
Alberga mistérios no seu ventre,
Solta desejos em ondas de prazer
Gritos libertinos dispersos em espuma.

Inquietude permanente nos abraços suados!
Perfeição de formas em alteração constante,
Revolta passiva em batalhas constantes
Ambiguidade no ser e no estar.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Traços de vida



Olho para a palavra e sinto toda a força que ela me consegue transmitir...não sei se é especialmente bela...confesso que enquanto palavra… só por si, não é das que mais me atrai. Mas, as palavras têm destas coisas podem não ser belas, podem não se engalanar como se fossem a rainha da festa e, no entanto, na sua simplicidade, podem dizer tanto e significar ainda mais!

Olhei para ela mais uma vez...estava escrita na areia da praia onde tinha ido depositar os meus pensamentos: duas vogais e duas consoantes...simples até na composição!

Uma breve aragem revolveu a areia e deixou-a órfã de uma vogal...parecia doente…sem significado aparente. Baixei-me e desenhei com o dedo indicador o "I" que tinha desaparecido...não custou nada e ela voltou a ter o sentido que sempre teve, aquele que me fez olhar para ela durante tão longos minutos.
Cruzei os pés na areia e sentei-me nas nuvens longínquas que se desenhavam no céu banhado daquele ouro de fim de tarde que só alguns conseguem apreciar...

Dois miúdos jogavam à bola bem perto de mim...não os tinha visto, absorta que estava no meu olhar longínquo! Quando os vi perdi-me no seu riso traquina e nas movimentações dos seus pés descalços que apagavam a segunda consoante da palavra. Sentindo o meu olhar espantado a pousar sobre eles fugiram entre fortes gargalhadas… voltei a insistir e desenhando um “D” a palavra voltou a ter a sua terceira letra!

Gaivotas rasgavam o céu num voo cansado, enchiam o ar de um piar ensurdecedor…cansada uma poisou na areia as patas em formas de “V” que se multiplicavam e vida ganhou mais ritmo…

Arrastavam-se as ondas na praia, cristais de espuma feitos do sal de lágrimas ininterruptas tentavam alcançar o fim da palavra…banhavam levemente o “A”, que vincado na areia teimava em permanecer… assim é!
Entre ventos, gestos, momentos de desânimo e marés vai vencendo a luta pela sobrevivência… a VIDA!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O Meu Lugar


- Queres vir comigo até onde a luz se transforma em água?
- Onde é que isso fica? Como chegamos lá?
- Isso é segredo. Posso apenas dizer-te que aí a dimensão das coisas é diferente. Tudo ganha proporções que nem sequer consegues imaginar…
- Estás a dizer que me vais levar a um lugar mágico?
-Se assim lhe quiseres chamar, para mim é apenas o MEU lugar…
Curiosidade, aventura, descoberta… nem sei, sei apenas que o segui. A sua voz era firme e levava-me até mundos distantes, como se me conhecesse de sempre. Não aquele conhecer de quem te vê todos os dias e te cumprimenta com um simples “Bom Dia!”… este era um conhecer diferente, uma chave para abrir os teus sentimentos, aqueles que não contas a ninguém (por vezes nem a ti própria). Por isso o medo apagou-se naquele olhar sereno que me lembrava o mar da minha infância, aquele que recordo como um aroma que me invade as madrugadas. Era um mar que conquistava a cidade e que quando a noite nos adormecia calmamente nos adornava com um cheiro que ainda faz parte de mim. E os meus sonhos voavam até essa ilha e sentia o embalar das ondas no meu corpo de criança.
Como seria possível alguém conhecer esse MEU lugar e chamar-lhe seu?
De quem seria essa voz que acordou o sono em que me encontrava?

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Queres ser a minha cinderela


Descia as escadas como quem percorria os degraus do inferno. O fumo de cigarros entediantes queimava-lhe os olhos, enquanto as pestanas batiam num ritmo desenfreado de revolta.
Estava cansada, como se o longo dia tivesse tendência a tornar-se ainda maior, só para lhe roubar as poucas gramas de boa-disposição que ainda lhe restavam.
As escadas pareciam intermináveis, tal como o seu dia!
Sentiu uma presença e um par de olhos preso a si. Levantou os seus, disposta a soltar um pouco do veneno que a consumia.
Entreabriu os lábios pela força da surpresa. Sentiu que todo o verde do mar a inundava.
Para trás esfumavam-se as marcas de um dia infinitamente doloroso. Palavras com o amargo sabor do café sem açucar que deixaram de fazer sentido, recriminações repetidas, monótona letra de uma balada triste, … tudo se perdia na bruma do passado
Agora, neste presente de dois desconhecidos, o ar tornou-se rarefeito enquanto as mãos procuravam um gesto banal para esconder o desejo.
O silêncio soletrava as rimas de um poema que ainda não sabíamos qual era, perdidos que estávamos na teia das sensações.
No percurso dos sentimentos que não conseguia travar, no olhar atrevido feito convite sentiu-se escorregar da escada que se tornou o seu porto de abrigo. Com vontade própria, a sandália rubra, da cor do verniz matizado saiu-lhe do pé dorido ao encontro da perna que lhe barrava a passagem.
Sorriu-lhe com os raios de sol prisioneiros nos dentes certos e brilhantes:
“Queres ser a minha Cinderela?”
A vergonha deu lugar a uma gargalhada em dois tons.
Saíram juntos, porque afinal nem sempre as escadas da dor conduzem ao inferno dos dias!